Agonia #2

111809136_1GGAgonia

Uma semana antes do casamento, foram os dois ao cinema ver um filme, se não me
engano, de Clark Gable. No fim, o mocinho era assassinado da maneira mais ignominiosa
e pelas costas. E, assim, varado de balas, Clark Gable agonizou e morreu no colo da
mocinha. Alberto saiu do cinema indignado:
— Ora, bolas!
— Quê, meu filho?
E ele:
— Ah, se eu soubesse que acabava assim, não vinha, nem amarrado!
— Eu gostei.
O rapaz parou, no meio da calçada:
— Gostou? Oh, toma jeito, Conceição. Tira o cavalo da chuva! Te digo mais: foi o fim
mais besta que eu já vi na minha vida!
Ela, temperamento macio, doce, não insistiu. Tinha horror às discussões. Mas, no fundo, gostara mesmo do desfecho sinistro. As fitas que acabavam mal, em morte, agonia e luto, causavam nela um duplo sentimento de fascínio e repulsa. A coisa que mais adorava era ver a heroína, de luto fechado, chorando o bem-amado morto. Ou vice-versa. E quando não havia, em causa, um morto ou morta, ela, na plateia, ao lado de Alberto, bocejava, desinteressada de tudo e de todos, querendo voltar para casa.

soluço

Era uma boa menina, delicada, de uma fragilidade física impressionante. Constava, mesmo, que sofria do coração, e a família, preocupada, vivia atrás dela, cheia de cuidados e prevenções: “Fulana, não faz isso! Não faz aquilo! Sobe a escada devagar!” Se apanhava um resfriado trivial, se acusava uma coriza sem maiores consequências, pai, mãe, tias, se arremessavam em pânico. Era colocada na cama, quase que à força; fechavam todas as janelas, por causa dos golpes de ar; e, de dez em dez minutos, impingia-se o termômetro na axila da pequena. Havia, naquela família de emotivos, de nervosos, a ideia de que Conceição ia morrer, de repente, em plena mocidade. Uma das tias, velha solteirona, já chorava por conta.
Quanto ao noivo, o Alberto, formava, com a menina, um contraste escandaloso. Tostado de sol, um físico de Victor Macture, carnudo, atlético, tudo nele parecia exprimir um apetite vital tremendo. Com uma saúde de ferro, não pensava na morte, julgava-se mais ou menos eterno. Ao voltar do cinema, com a noiva, sete dias antes do casamento, fez-lhe um pedido formal:
— Queres me fazer um favor?
— Faço.
Insistiu.
— Um favor de mãe pra filho?
— Claro!
— Então não me fala mais em morte, sim? Arranja outro assunto, meu anjo. Que diabo!
Ele reclamava e, vamos e venhamos, com razão. Porque, desde o começo do namoro, o assunto de Conceição era esse. Ou falava na morte alheia ou se divertia imaginando a própria.
Fazia as perguntas mais surpreendentes, como, por exemplo, esta:
— Será que eu vou ficar feia, quando morrer?
O rapaz, mais do que depressa, procurava uma madeira, batia, ao berro de:
— Isola!
De fato, ela queria ser e fazia questão de ser uma morta bonita, dessas que “parecem dormir”. E se não falava de si mesma, falava dos outros. Já contara e recontara ao noivo, não sei quantas vezes, todas as agonias e todas as mortes da família. Sobretudo a morte do avô. Durante 15 dias, o velho teve um soluço que resistia, bravamente, a tudo. O médico da família dera injeção, o diabo, mas em pura perda. Até que veio a morte e o ancião pode descansar. Durante vários dias, a família, na obsessão auditiva daquele soluço imortal, julgava ouvi-lo, muito depois do enterro, nas salas, nos quartos, nos corredores. E Alberto, apesar de sua vitalidade quase bestial, deixou-se impressionar por essa infinita agonia.Sonhou com o soluço sobrenatural. Via o gogó do moribundo subindo e descendo. O pior é que, no fim de certo tempo, ele também começou a se interessar, a se apaixonar pelas histórias fúnebres. De vez em quando, procurava reagir, como no caso do filme de Clark Gable. Mas, quantas vezes, sem sentir, ficou horas ouvindo Conceição falar dos parentes mortos? Ia para casa pensando em assombração e fazia, com uma graça triste, a reflexão:
— Eu acabo maluco e a família não sabe!

O casamento

Até que chegou o dia do casamento, ou como disse o médico da família, numa satisfação profunda, o “gran-de dia”. No quarto, vestindo-se, Conceição criava uma hipótese deslumbrante: a de morrer, no altar, com grinalda e véu. Essa morte muito linda a tentou de uma maneira quase irresistível. Quando uma das tias, com infinito cuidado, colocou a grinalda, Conceição não se conteve, fez a pergunta quase alegre e frívola:
— E se eu morresse hoje?
Em redor, houve um burburinho:
— Cruz, credo!
Foi repreendida:
— Você tem cada uma!
Deixou-se levar para a igreja, ia numa ardente meditação. Entretanto, não morreu no altar, embora tanto o desejasse. Voltou para a casa dos pais, toda iluminada. O noivo a olhava muito e parecia dizer: “Minha!” Estava em plena euforia da
propriedade. Na saída, debaixo de uma apoteose de arroz, ele quase pragueja, pois se lembrara, sem que nem pra que, do soluço imortal do avô. Rosnou para si mesmo: “Carambolas!” Mas a felicidade subiu-lhe à cabeça: esqueceu o velho defunto. Durante 48 horas, foram o homem e a mulher mais felizes do mundo. Maravilhada com o amor, Conceição não falava na morte. Sem sentir, a relegara para um plano inteiramente secundário. Já admitia que a vida fosse assim, sempre, e que jamais os problemas práticos pudessem interferir na lua de mel! Todavia, 48 horas depois, cometeu uma imprudência: levantou-se, de manhã cedinho, no seu pijama leve, de um cinza transparente, e foi, descalça, para o banheiro. As chinelinhas de arminho ficaram embaixo da cama. Lá no banheiro, escovou os dentes, sem pressa e sempre com os pés nus no ladrilho frio.Depois, ocorreu-lhe um voluptuoso capricho: chamou o marido e, juntos, tomaram banho. Brincaram um tempão debaixo do chuveiro. Outra qualquer faria isso e muito mais, sem conse-quências. Conceição, porém, era de uma fragilidade apavorante. No café, ao pôr manteiga nas fatias torradas, experimentou um arrepio. Fez o
brevíssimo comentário:
— Ué!
Mais tarde, veio a coriza. Depois, uma febrícula. À meia-noite e pouco, ela, com a temperatura mais elevada e atormentada pelo frio, chamou o marido que, ao lado, cochilava.
Baixou a voz:
— Eu vou morrer, Alberto!
— Que ideia!
— Vou sim, Alberto. Sei que vou morrer!
Ele acabou praguejando:
— Perde essa mania de morte, Conceição! Isso que você tem é um resfriado bobo!…

A promessa

Alta madrugada, ela o acordou de novo. A febre a embelezava, dava-lhe graça triste e ardente. Estava com a obsessão da morte. Repetia com uma doce e monótona tristeza: “Vou morrer, vou morrer…”
O marido, já com um começo de medo, ensaiou o protesto prosaico:
— Sossega!
Ela, surda às objeções, aos contra-argumentos, explicava que uma só coisa a apavorava na morte, era ser enterrada. Desde criança ouvia falar em “terra fria”, em “sete palmos de terra”, em “túmulo”, “jazigo perpétuo”, etc., etc. Parecia-lhe que os defuntos deviam sentir a falta de ar e de luz. Seria tão bom que os mortos pudessem ficar em casa, na sala, no quarto, com as mãos em repouso, entrelaçadas. Era a febre, com certeza, que a fazia dizer essas loucuras. Malgrado seu, o marido se deixava impressionar. Dir-se-ia que a febre da esposa se transmitia a ele e o embriagava, também. Pensou: “Acabo doido!” Quase ao amanhecer, Conceição, mais febril do que nunca, fez-lhe o pedido:
— Se eu morrer,não quero ser enterrada. Você esconde o meu corpo debaixo de
qualquer coisa…
Ele, alarmado, não sabia o que dizer:
— Morrer como? Ninguém vai morrer, ora essa, que bobagem!
Conceição teimava, abraçada a ele, falando quase boca com boca:
— Jura que não serei enterrada, jura!
Acabou admitindo:
— Juro.
— Por Deus?
— Por Deus!
Por sua vez, cansado, ele cochilou mais meia hora. Foi o bastante para sonhar com o soluço do avô. Acordou e, durante alguns momentos, teve uma alucinação auditiva. Ouvia o soluço. Não podia ser, meu Deus, era impossível! Só então percebeu: quem estava com soluço era Conceição. Quis chamar um médico, ou alguém, mas a mulher, já acordada, não deixou. E, na verdade, ele já não acreditava em nenhum remédio terreno para o mal sutil e inexplicável
que estava levando a pequena. Vez por outra, dizia de si para si: “Não estou raciocinando direito.” Mas já a própria loucura não o assustava. Talvez a desejasse como uma solução. Durante dois dias não saiu do quarto. Encerrado, ali, o casal tinha uma companhia única: o soluço. Alberto dormia e, no próprio sonho, o escutava. Ao despertar, lá estava ele. Mas, uma manhã, acordou e não ouviu nada. Compreendeu que a esposa estava morta.

Monte Cristo

Cinco dias depois, os vizinhos começaram a sentir um cheiro horrível. Investiga daqui, dali, acabaram desconfiando. Entraram no quarto e encontraram a esposa morta e o marido, sentado no chão, de barba crescida, quase à Monte Cristo. Os mais sensíveis levaram o lenço ao nariz. Alberto, quase sem voz, explicou que a mulher pedira para não ser enterrada. Levaram-no, do quarto, moribundo e variando. Sua última pergunta foi esta:
— Não estão ouvindo um soluço?

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Vida de Cinema #1

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Os filmes que víamos antigamente não nos prepararam para a vida. Em alguns casos, continuam nos iludindo. Por exemplo: briga de socos. Entre as convenções do cinema que persistem até hoje está a de que socos na cara produzem um som que na vida real nunca se ouviu. O choque de punho contra rosto fazia estrago nos rostos — ou não fazia, era comum lutas em que os brigões quase se matavam a murros terminarem sem nenhuma marca nos rostos — mas poupava os punhos. E como sabe quem, mal informado pelo cinema, entrou numa briga a socos, o punho quando acerta o alvo sofre tanto quanto o alvo.

No cinema de antigamente você já sabia: quando alguém tossia, era porque iria morrer em pouco tempo. Tosse nunca significava apenas algo preso na garganta ou uma gripe passageira — era morte certa. Quando um casal se beijava apaixonadamente e em seguida desparecia da tela era sinal que tinham se deitado. E depois, não falhava: a mulher aparecia grávida. Nunca se ficava sabendo o que acontecia, exatamente, depois que o casal desaparecia da tela, a não ser que o filme fosse francês. Pode-se mesmo dizer que o começo da mudança do cinema americano começou na primeira vez em que a câmera acompanhou a descida do casal e mostrou o que eles faziam deitados. Depois desse momento revolucionário não demoraria até aparecerem o beijo de língua e o seio de fora. E chegarmos ao cinema americano de hoje, em que, de cada duas palavras ditas, uma é fucking.

Se a vida fosse como o cinema nos dizia, nunca faltaria bala nas nossas pistolas ou gelo no balde para o nosso uísque quando chegássemos em casa. E sempre que tivéssemos de sair às pressas de um restaurante, atiraríamos dinheiro em cima da mesa sem precisar contá-lo e sem esperar que o garçom trouxesse a nota. Seria uma vida mais simples, a cores ou em preto e branco, interrompida a intervalos por números musicais em que cantaríamos acompanhados por violinos invisíveis, e quando dançássemos com nossas namoradas, seria como se tivéssemos ensaiado durante semanas, e não erraríamos um passo, e seríamos felizes até the end.

Folk-se : Conhecendo músicas Folk e Indie #2

Mais uma semana começando e mais 5 sons para você conferir.

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1 – Diamonds And Rust – Joan Baez

A primeira música da semana é da incrível Joan Baez (uma de minhas cantoras favoritas). Com uma voz linda, marcante e única, Joan conta uma história nessa bela canção que vocês precisam conhecer.

Um trecho por escrito dessa bela música
“It’s just that the moon is full / And you happened to call / And here I sit / Hand on the telephone / Hearing a voice I’d know / A couple of light years ago / Heading straight for a fall”
“É só que a lua está cheia / E você resolveu me ligar. / E aqui me vejo sentada, / Telefone na mão, / Escutando uma voz que me cativou / Um par de anos luz atrás / E me jogou direto no abismo”

2- Misread – Kings Of Convenience

Misread é uma bela canção da dupla Folk-pop Indie que fala da amizade, do real valor  que um amigo verdadeiro tem e, como várias canções, menciona a solidão que algumas pessoas sentem, mas não de um forma totalmente negativa.

Um trecho por escrito da música, na verdade, vou deixar dois trechos dessa música.
“A friend is not a means / You utilize to get somewhere”
“Um amigo não é um meio /Que você usa para chegar a algum lugar”

“The loneliest people / Were the ones who always spoke the truth / The ones who made a difference / By withstanding the indifference”
“As pessoas mais solitárias / Foram aquelas que sempre falaram a verdade / Aquelas que fizeram a diferença / Ao confrontar a indiferença”

3 – Rivers And Roads – The Head And The Heart

Uma ótima canção para se escutar em momentos de mudanças, pois é justamente disso que a música fala, sobre como tudo muda na vida todos que conhecemos se vão algum dia. Além de uma bela letra a música conta com uma bonita melodia e um voz que encaixa perfeitamente tanto com a letra quanto com a musicalidade.

Um trecho da música por escrito “A year from now we’ll all be gone / All our friends will move away” “Em um ano todos nós teremos partido / Todos nossos amigos irão se mudar”

4 – Fiesta Pagana – Mägo de Oz

Não conheço muito da banda de Folk Metal, mas essa música você tem que conhecer. E uma daquelas músicas que, ou você ama, ou você odeia, e isso dependerá muito de cada pessoa. A musicalidade é bem animada, misturando vários instrumentos formando uma melodia muito legal e agradável de se ouvir. A letra pode até ser considerada um pouco polêmica para algumas pessoas, principalmente as mais religiosas, mas repito, vale a pena conferir essa canção.

Um trecho por escreito da música
“Cuando despiertes un día / Y sientas que no puedes más / Que en el nombre del de arriba / Tu vida van a manejar”
“Quando acordar um dia / E sentir que já não aguenta mais / Que em nome do lá de cima / Sua vida estão a manipular”

5 – Promise – Ben Howard

Para finalizar a lista dessa semana teremos uma canção bem relaxante e bem suave, desde sua musicalidade até seu canto, mas que você talvez já tenho ouvido.

Um trecho por escrito da música
“And promise me this / You’ll wait for me only”
“E me prometa isso / Você esperará somente por mim”

Essas foram as 5 músicas da semana. Lembrem-se de ficarem à vontade para indicar músicas também.

Até a próxima semana!

Obrigado pelo seu tempo.

O Inferno #1

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Toda sexta-feira estarei trazendo um conto do livro ” A Vida como ela é ” do Nelson Rodrigues

O Inferno #1

O inferno

Quando ela disse que tinha um filho, um garoto, já de 12 anos, Romualdo caiu das
nuvens:
— Filho?
— Você não sabia?
Foi enfático:
— Nem desconfiava.
E ela:
— Pois tenho. Fez 12 anos, está no colégio.
— Engraçado!
— Por quê? Ele foi, então, gentilíssimo. Disse que ela não parecia mãe de ninguém e muito menos de um garoto, quase rapaz. E, na verdade, a idade do menino o espantara. Lucília, com seu tipo frágil e pequeno, o ar de menina, um quê de infantil nos olhos, no sorriso, nas maneiras, parecia uma garota solteirinha. E não foi somente de espanto sua reação. Experimentou também um certo alarma. Aquele filho, aquele marmanjo, inesperado e taludo, assustava. Foi, porém, bastante hábil e educado para dissimular o desconforto e bastante cínico para a seguinte promessa:
— Vou ser para ele um segundo pai!
— Deus me livre!
— Como?
Lucília suspirou:
— Eu te explico. Vamos entrar ali, um momentinho.

O filho

Entraram numa sorveteria. Depois de sentados e servidos, ela foi tomando sorvete e explicando.
— O Odésio não pode saber, nem desconfiar.
Esta era uma condição que ela impunha. Ou ele aceitava ou, então, nada feito.
Romualdo ainda ponderou:
— Acho que você exagera!
— Ora, Romualdo, tem dó! Você se esquece que é casado, que vive com outra, que tem filhos, esquece?
— Realmente.
— Pois é, meu filho, pois é!
Eram seis horas quando Romualdo a largou, num ônibus, apinhadíssimo. Ela fez a viagem em pé. A promiscuidade, ali, era uma coisa abjeta. Espremida, imprensada, triturada em meio dos passageiros, teve uma sensação de ultraje, de profanação, de aviltamento. Um cavalheiro que ia saltar no poste seguinte, foi varando a massa humana; ao passar por ela quase a derruba. A sensação do ultraje recrudesceu em Lucília.
Resmungou:
— Animal!
Mas ia bastante atribulada com seus problemas. E não ligou mais para os contatos indesejados e brutais que, nos ônibus cheios, são inevitáveis. O drama de Lucília era, em suma, o seguinte: o medo, o pavor, de que o filho enfim soubesse… A opinião, o julgamento do garoto era a coisa que mais a impressionava no mundo. Temia-o mais do que o Juízo Final. Ao mesmo tempo, tinha loucura por Romualdo e a vida sem ele seria de uma monotonia medonha. Pendurada no ônibus, gemeu interiormente:
— Oh! Meu Deus do céu!

História de amor

Então, começou a mais doce, a mais sofrida história de amor. Voltava, dos seus encontros com Romualdo, em sobressalto. O filho estava sempre na rua, jogando bola ou em brincadeiras turbulentas com amigos, de sua idade. Uma vez, deu um chute, e com tanta infelicidade, que a unha do dedo grande do pé saltou longe. O negócio inflamou; e Lucília, quando chegou, de uma entrevista amorosa, tomou-se de vergonha e de remorso. Pensou, lavando o pé machucado: enquanto ela se divertia com um homem, além do mais casado, o filho, sozinho, estava precisando de seus cuidados. Vamos que fosse uma coisa pior que um simples esfolamento de dedo. Que remorsos não sentiria? O menino, corajoso, quase não se queixava. E era ela quem tinha de perguntar:
— Está doendo?
— Mais ou menos.
E Lucília:
— Quando estiver doendo, diga!
No dia seguinte, Lucília apareceu triste. Suspirava:
— Que vida!
Romualdo acabou se enfezando:
— Que vida, por quê? Ela, então, pôs as cartas na mesa:
— Reconheço que a culpada sou eu, porque você, sendo casado, eu não devia… Não.
Romualdo, não está direito. Fez uma pausa, antes de completar:
— Se, ao menos, você vivesse só pra mim!
Foi brutal:
— Ora, Lucília, ora! No mínimo, você está querendo que eu deixe minha mulher! Sou capaz de apostar!
Despediram-se sem carinho. E ele, ressentido, mal se deixou beijar. Disse, apenas:
— Vai com Deus, vai!
Nessa noite, ele fez confidências a um amigo. Quando este soube que havia um filho no meio, um marmanjão de 12 anos, foi categórico:
— Abacaxi autêntico!
E Romualdo insistiu:
— Você não acha um desaforo que ela queira, imagine, que eu deixe minha mulher?
— Evidente!
No primeiro encontro, Romualdo rompeu fogo:
— Das duas, uma: ou você muda de cara, faz uma cara alegre ou então, minha filha, vamos acabar com esse negócio. Já não estou gostando, nada, nada!
Já o termo “negócio” pareceu-lhe de uma abominável grosseria, de um prosaísmo ultrajante. Além disso, a agressividade, como se ela fosse uma qualquer! Exaltou-se, também:
— Não grite! Está pensando que eu sou o quê?
— Grito, pronto, grito! Não topo chiquê! Comigo, não!
Ela não disse uma, nem duas. Apanhou a bolsa, que estava em cima da mesa: olhou-se instintivamente, no pequeno espelho; e, num passo lento, encaminhou-se para a porta. Parou um segundo, uma fração de segundo. Esperava talvez que Romualdo a chamasse. Teria, então, voltado, e tudo terminaria numa reconciliação feroz. Mas ele, esbravejou:
— Mulheres é que não faltam, inclusive a minha!
Podia haver pontapé mais claro, mais insofismável, mais absoluto? Saiu para nunca mais.

O abandono

Tinha do próprio casamento e do marido morto uma lembrança penosa. O marido era uma nobre alma, que vivia para a esposa e para o filho. Mas tudo que ele fizesse, de bom, de heroico, de sublime, esbarrava diante de sua falta de amor. E isso, essa falta de amor, era pior do que o ódio. Crispava-se quando o pobre-diabo vinha fazer-lhe festa. Houve uma vez, em que não pôde, não aguentou, explodindo:
— Não me beija! Não quero seu beijo! Que coisa aborrecida!
Ele já estava doente, na ocasião. Foi talvez este episódio que antecipou o fim. Seis meses depois ela, sem nenhum luto interior, tinha a sua primeira experiência amorosa, na pessoa do casado Romualdo. Viu, então, que o marido a interessava menos que o mata-mosquitos anônimo que vinha pôr creolina no ralo. Foi uma paixão feroz que acabou, como vimos, da maneira mais estúpida do mundo. Durante dias, Lucília, numa tristeza obtusa, esperou um telefonema, um bilhete, um recado. Nada. Absolutamente nada. Depois soube, por terceiros, que ele andava com uma datilógrafa extranumerária
numa autarquia; tinham sido vistos no Passeio Público, onde tiravam retratos, no lambelambe. Lucília, fora de si, encerrava-se no quarto, ficava horas, de bruços, na cama, chorando. Já o julgamento do filho não a interessava mais. O garoto, diante do seu pranto,
perguntava:
— Que é que a senhora tem, mamãe?
— Não aborrece! Não amola! Sai daqui, anda!
Na presença do filho, ligava para o escritório do bem-amado. De lá, queriam saber quem era.
Lucília se identificava. Então, a resposta infalível era: “Não está.” Uma vez, porém,
coincidiu que o próprio atendesse. Mas quando percebeu que era ela, explodiu:
— Me deixa em paz, sim? Quero sossego! Vê se não me chateia.
O filho não fazia comentário. Era uma testemunha muda de tudo. Guardara, porém, o nome e o repetia: “Romualdo, Romualdo.” Conhecia-o, de vista. Pensava nele, dia e noite, com essa obstinação de amor ou de ódio. E já não saía mais de casa, não jogava mais bola; passava as horas ao lado de Lucília, de olhos muito abertos, como se esse desespero o fascinasse, apesar de tudo. Ouviu quando a mãe, numa crise maior, amadiçoou o homem que a abandonara:
— Tomara que ele morra, meu Deus! Fique debaixo de um automóvel! Tomara, meu Deus!
Por fim, ela já não queria mais nada; ou, por outra, queria morrer. Não comia e seu desmazelo, de atitudes, de roupas, de higiene, era aterrador. Passava dias com uma mesma combinação. Outras vezes, do fundo do seu desespero, fazia a reflexão: “Há três dias que não escovo os dentes.” O filho se abraçava a ela, chorava:
— Não fique assim, mamãe! Não chore mais!
Certa vez, na rua, o garoto ouviu dizer que não se nega nada a quem está morrendo, a quem vai morrer. O “último” pedido de alguém, justamente por ser o “último” é alguma coisa de terrível e sagrado, que cumpre obedecer, sob pena de maldições tremendas.
Então, afirmou:
— Ele volta, mamãe! Volta, sim! Juro por Deus!

A volta

Romualdo estava, no poste, esperando o ônibus. O garoto desconhecido aproximou-se e disse que era filho de d. Lucília e falou mais:
— Volta para minha mãe. É meu “último” pedido.
Romualdo não entendeu. Ou só entendeu quando o menino se atirou debaixo de um ônibus que passava a toda velocidade. A morte foi instantânea. Alta madrugada apareceu mais alguém para fazer quarto ao menino: era o assombrado, o enlouquecido Romualdo. Voltava, sim. E continuou voltando, escravo do “último pedido” de uma criança. Quando, finalmente, ela se cansou dele e quis deixá-lo, Romualdo lembrou, apenas, o desejo do menino. Então Lucília compreendeu que estavam unidos, e para sempre, dentro de um inferno.

Gosto desse conto pois ela enfatiza que fazemos de tudo para ver quem a gente ama feliz, mesmo que isso nos mate.

Folk-se : Conhecendo músicas Folk e Indie #1

A cada publicação estarei trazendo 5 sons Folk, Indie ou que me agradem.

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1 – Two Sides Of Lonely – The Lone Bellow

É quase impossível não amar essa música! Desde sua bela e triste letra até a sua calma melodia. O jeito como o trio formado por Zach Williams, Kanene Donehey Pipkin e Brian Elmquist a canta é agradavelmente agoniante.

Um trecho por escrito da letra. Como não amá-la ?
“Two sides of lonely / One’s in the grave / And the other should be”
“Dois lados da solidão / Um está na cova /E o outro devia estar”

2 – How To Fight Loneliness – WILCO

Essa música do WILCO é simplesmente linda! Principalmente em sua letra e a mensagem que ela tenta passar (mas isso vai da interpretação de cada um, creio eu.) A letra da música parece ser um incentivo para ao menos tentar combater a solidão que aflige a nossa alma. Juntamente a  essa letra, temos uma melodia que nos faz acreditar na letra.

Um trecho por escrito da letra.
“That’s how you fight loneliness / You laugh at every joke”
“É assim que você combate a solidão / Você ri a cada piada”

3 – Modest Mouse – Ocean Breathes Salty

A sonoridade se encaixa perfeitamente com o vocal do vocalista. E ainda temos essa letra maravilhosamente triste! É quase impossível não se identificar com ao menos uma parte dessa música.

U trecho por escrito da letra. Identificou-se, não?
“Your body may be gone, I’m gonna carry you in / In my head, in my heart, in my soul”
“Seu corpo pode ter ido,mas eu vou te carregar / Na minha cabeça, no meu coração, na minha alma

4 – The Dreamer – The Tallest Man on Earth

Essa é a minha música!  A minha e a de milhares de sonhadores que nem sempre podem seguir seus sonhos, mas continuam seguindo em frente. É mais fácil deixar a música falar por si.

Um trecho por escrito da letra.
“I’m just a dreamer but I’m hanging on”
“Eu sou apenas um sonhador, mas eu estou seguindo em frente”

5 – Santa Fe – Beirut

Beirut é aquela banda que quando escuto, sinto-me em Veneza. Amo essa mistura  de sons que elas fazem, é simplesmente sensacional!  Além de linda, é muito relaxante.

Um trecho escrito da música
“And whatever comes through the door / I’ll see it face to face”
“E o que quer que seja que vem pela porta / Eu vou encara-lo cara-a-cara”

Bom, essas foram as 5 músicas. Sintam-se à vontade para comentar o que quiserem a respeito das músicas e do post em si.

(Se você quiser conhecer mais sobre o Folk aconselho esse curso intensivo de apreciação do Folk : http://www.papodehomem.com.br/folk-curso-intensivo-de-apreciacao/ . Que deixou-me ainda mais encantado por esse estilo musical )

Sejam sempre bem-vindos!

Obrigado pelo seu tempo!