MAUSOLÉU

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Durante uma hora maciça, deixou-se ficar, em pé, numa contemplação espantada. Lá estava a mulher, de pés unidos, as mãos entrelaçadas, entre as quatro chamas dos círios. Parentes e amigos tentavam convencê-lo: “Senta! Senta!”. Mas ele, fiel à própria dor, era surdo a esses apelos. Como insistissem, acabou explodindo: “Não me amolem, sim?”. E continuou, firme, empertigado. No fundo, achava que sentar, em pleno velório da esposa, seria uma desconsideração à morta. Uma hora depois, no entanto, cansou. E esta contingência física e prosaica fê-lo transigir. Ocupou uma cadeira entre dois amigos. Uma senhora gorda, aliás vizinha, inclinou-se, suspirando: — É por isso que eu não topo viajar de avião! Pronto. A dor do viúvo, que estava provisoriamente amortecida, reagiu. Ergueuse, alucinado. E foi um custo para contê-lo. Apertando a cabeça entre as mãos, encheu a sala: — Sabem o que é que me dana? Hein? Sabem? — interpelava os presentes; e prosseguiu: — É de que, do Rio para São Paulo ou vice-versa, não cai avião nenhum, ninguém morre. É o tipo de viagem canja, que todo mundo faz com um pé nas costas. É ou não é? — É. Mergulhou o rosto nas duas mãos, soluçando: — Então, como é que Arlete vai morrer nessa viagem besta? Como?!… Várias pessoas vieram confortá-lo: — Calma, Moacir, calma! Debateu-se nos braços que procuravam contê-lo: “Eu quero morrer também, oh, meu Deus!…”.

HISTÓRIA DE AMOR

Estavam casados há um ano. E, agora, no meio do velório, desgrenhado, Moacir fazia confidências públicas: “Nossa vida foi uma lua-de-mel tremenda!”. Rilhava os dentes, evocando o beijo cinematográfico que dera no aeroporto, pouco antes de partir de avião. A esposa ia a São Paulo visitar uma tia doente, e Moacir, retido no Rio por uma série de negócios, não pôde acompanhá-la. Agora se arrependia de uma maneira atroz; esbravejava: “Ah, se eu soubesse! Se eu pudesse adivinhar!”. E sustentava a tese de que teria sido, para ele, um altíssimo negócio, um negócio da China, ter despencado no mesmo avião, abraçado à mulher. E repetia: — Como vai ser? Como vai ser? Às dez horas da manhã, saiu o enterro. E, então, foi uma tarefa hercúlea controlar a dor furiosa de Moacir. Ele se arremessava contra as paredes; atirava-se no chão. Os pais da morta, as irmãs paravam de chorar, intimidados, ante uma dor maior. Não queriam deixar o viúvo ir ao cemitério; ele teve que prometer. “Eu fico quietinho! Juro que eu fico quietinho!”. E, de fato, comportou-se, lá, relativamente bem. Na saída, virou-se para o coveiro, numa recomendação patética: “Trate direitinho da sepultura, que eu dou uma gratificação, ouviu?”. Enfiou a mão no bolso, apanhou cem cruzeiros, que passou ao fulano: — Pra uma cervejinha! Mas não se esqueça, sim?

A DOR

Encerrou-se na própria residência, disposto a viver em função de sua dor. Estava disposto a sofrer para o resto da vida. Encheu a casa de retratos da esposa. Segundo a maledicência jocosa da vizinhança, havia retratos até na cozinha. Os amigos e parentes, apreensivos, comentavam entre si: “Isso já é loucura!”. Por outro lado, adotara um luto fechadíssimo. Ofendeu-se quando o sócio sugeriu, de boa-fé: “Põe fumo. Basta fumo. É mais moderno e não impressiona tanto”. Recuou vários passos; enfureceu-se: — Que negócio é esse de modernismo pra cima de mim? Tira o cavalo da chuva! O outro quis argumentar: — Mas vem cá, fulano, sou teu amigo, que diabo! Luto é uma coisa mórbida, doentia, desagradável! Exultou, numa satisfação feroz: — Pois que seja! Ótimo! Eu gosto de ser mórbido, eu pago pra ser doentio! O sócio saiu dali assombrado. Foi dizer para as relações comuns: “Quero ser mico de circo se o nosso Moacir não está meio lelé!”. Permitiu-se, ainda, o comentário profético: “Vai acabar rasgando dinheiro!”.

O SÓCIO

Chamava-se Escobar, o sócio. Podia não ser muito amigo do Moacir, mas havia, entre os dois, vínculos mais eficazes que os simplesmente afetivos: os interesses comuns. E verdade seja dita: o Moacir fazia uma falta imensa na firma. Ele era, no negócio, o gênio administrativo, ao passo que o Escobar contribuía com as idéias. Absorvido pela viuvez, ocupado em chorar a esposa, Moacir não tinha cabeça para pensar na vida prática. Com razão, o Escobar alarmou-se: “Assim não vai. Ou o Moacir volta, ou damos com os burros n’água!”. Dedicou-se, então, a arrancar o sócio de suas pesadas atribulações. Todos os dias ia visitá-lo: “As coisas lá na firma estão calamitosas!”. O outro, de barba crescida, olhos incandescentes, cabeleira, um vago ar de Monte Cristo, resmungava: “Não interessa!”. Insistia o Escobar, escandalizado: “Como não? Você tem interesses, deveres, responsabilidades!”. Desta vez, Moacir não respondia. Imergia numa ardente e fúnebre meditação. Era óbvio que seu pensamento pairava em alturas inimagináveis. E, súbito, sem a menor relação com os assuntos do amigo, empreendia a exaltação da mulher. Era taxativo: “Tu não imaginas, tu não podes fazer a mínima idéia! Era a melhor mulher do mundo!”. Dramatizava: — Qualquer outra não chegava aos pés da minha! Não era nem páreo pra minha! — E, pondo a mão no braço do Escobar, acrescentava: — Nunca mais, ouviste?, nunca mais quero nada com mulher nenhuma. Te juro! Te dou minha palavra de honra! Escobar erguia-se, atônito: — Toma jeito, Moacir! Nem tanto, nem tão pouco! Isso não é normal! Isso é contra a natureza! Moacir, trêmulo, replicava: — Pois eu quero que a normalidade e a natureza vão para os diabos que as carreguem! Seu consolo, agora, era o mausoléu, à base de anjos, que mandara erguer para a falecida.

A IDEIA

Passaram-se mais dois meses e o Moacir continuava imprestável. Escobar quebrava a cabeça: “Tenho que descobrir um jeito, um modo, uma maneira de salvar essa besta!”. Como era sujeito fantasista, que se envaidecia das próprias idéias, acabou descobrindo uma solução. Convocou uma mesa-redonda de parentes do sócio. Avisou: — O negócio está nesse pé: ou o Moacir vem trabalhar ou a firma vai direitinho para o beleléu. Vocês confiam em mim ou não? A resposta foi reconfortante e unânime: “Confiamos”. Escobar pigarreou, para clarear a voz: “Eu tive uma idéia que me parece genialíssima. Deve ser tiro e queda. E quero saber se vocês me autorizam, no escuro, a usar essa idéia. Autorizam?”. Silêncio. Os parentes se entreolhavam. Um porta-voz indagou: “Podia-se saber que idéia é essa?”. Respondeu o Escobar: — Não. O segredo é a alma do negócio. E considero minha idéia boa demais para antecipá-la. Direi apenas que se trata de uma mentira. Mentira necessária e salvadora. Vocês me autorizam a mentir? Sim ou não? Novo silêncio e nova manifestação do porta-voz: “Sim”. Escobar esfregou as mãos, radiante: “Então vou mergulhar de cara”.

A MENTIRA

Seguro de si, invadiu a casa do amigo e sentou-se a seu lado; entrou, como ele próprio diria depois, de sola: “Olha aqui, Moacir: teu problema é mulher, percebeste? Tens que arranjar, imediatamente, uma ou várias mulheres. Ou então, estás liquidado”. O outro, que estava sentado, ergueu-se trêmulo: “Estás maluco? Doido?”. Mas Escobar continuou num impressionante descaro, com a pergunta: “Topas uma farrinha hoje? Conheço um lugar que tem um material de primeira. Olha! Cada pequena daqui!”. Moacir disse, numa espécie de uivo: “Nunca! Nunca!”. Chegara o grande momento. Escobar esmagou a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro; dizia, sem desfitar o amigo: “Tu sabes que és meu, do peito, não sabes?”. — Mais ou menos. — Pois bem. Há uma coisa que tu precisas saber e que saberias mais dia menos dia. Vou te contar porque, enfim, não gosto de ver um amigo meu bancando o palhaço. — Fala. Escobar pousou a mão no ombro do sócio: “Tua mulher foi a São Paulo pra quê? Por causa de uma tia?”. E o próprio Escobar, exultante, respondeu: “Não! Pra ver o amante! Sim, o amante!”. Foi uma cena pavorosa. Quase, quase, o Moacir estrangula o amigo. Mas Escobar sustentou até o fim. Tornou sua mentira persuasiva, minuciosa, irresistível: “Eu mesmo vi os dois, juntos, em Copacabana…”. Decorara, ao acaso, o nome de um dos passageiros do mesmo avião e o repetia: “Vê, na lista, se não está lá, vê! Inventou o pretexto da tia para acompanhá-lo!”. Uma hora depois, Moacir arriava na cadeira, desmoronado; rosnava: “Cínica! Cínica!”. Em pé, vitorioso, Escobar perguntava: “Topas agora a farrinha? Topas?”. Ergueu-se, desvairado: — Topo! OS QUERUBINS Foi, com o amigo, e já sem luta, ao lugar combinado, que era a casa de uma tal Geni. Saiu de lá, bêbado e quase carregado, ao amanhecer. No dia seguinte, sem dizer nada a ninguém dirigiu-se ao cemitério. Durante uns quinze minutos, ficou vendo os operários que trabalhavam no mausoléu da finada Arlete. Era um mausoléu caríssimo, baseado numa alegoria de querubins, coroando a pureza da morta. Súbito, teve o acesso. Apanhou a picareta mais próxima e investiu, num desvario, fendendo os querubins de mármore. Quando o dominaram, o chão estava cheio dos anjos mutilados. Foi arrastado; e vociferava: — Não pago mais as outras prestações dessa droga! Não dou mais um tostão! — esganiçava a voz. — Minha mulher era uma cachorra!

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Ó vós que no caminho do Amor passais.

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Ó vós que no caminho do Amor passais.
dizei se há dor igual à minha, grave;
peço, apenas, que me ouçais,
e que, depois, imagineis
que sou de todo o sofrimento albergue e chave.
Deu-me Amor por sua fidalguia,
que não por virtude que não tenho,
uma vida tão doce e tão suave
que amiúde a gente atrás de mim dizia:
Deus, por que estranha dignidade 
tem este assim alegre o coração?”
Perdi, ora, toda a confiança 
que do amoroso tesouro dimanava;
pelo que tão pobre fico
que até para falar careço de valor
Assim, fazendo como aqueles
que por vergonha ocultam seu tormento,
por fora sou contentamento, 
ao passo que por dentro me consumo e choro.

 Dante Alighieri

A toda a alma prisioneira, a todo coração gentil.

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A toda a alma prisioneira, a todo o coração gentil,
até os quais correndo vá o meu lamento
(e que diga cada um aquilo que sente)
saúde em seu senhor, ou seja o Amor.
Quase se tinha atingido a hora
em que a luz estrelar mais viva nos parece,
quando de súbito o Amor se me mostrou, 
e de tal forma que lembrá-lo me horroriza. 
Alegre me parecia, tendo
numa das mãos meu coração, e nos braços, 
envolta num cendal, minha dama, adormecida.
Despertou-a; e desse coração, que ardia, 
ela comia, receosa, humildemente
Vi-o depois afastar-se soluçando. 



 Dante Alighieri

 

XXVII

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Tão longamente me reteve Amor
E acostumou-se à sua tirania,
Que, se a princípio parecia rude,
Suave agora me habita o coração.
Assim, quando me tira tanto as forças
Que os espíritos vejo me fugirem,
Então a minha frágil alma sinto
Tão doce, que o meu rosto empalidece,
Pois Amor tem em mim tanto poder
Que faz os meus suspiros me deixarem
E saírem chamando
A minha amada, para dar-me alento.
Onde quer que eu a veja, tal sucede,
E é coisa tão humil que não se crê.

 Dante Alighieri

 

Um Texto Qualquer.

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Hoje é mais um dia em que escrevo sobre o que sinto em relação a você e você nunca saberá. Nunca saberá pois nunca irei lhe contar, mas, mesmo que encontre esse texto, ou qualquer outro que fiz para você, não saberá que foram feitos para você. Embora toda a minha alma e toda  a paixão que sinto por você estejam em minhas palavras, não creio que, caso as encontres ao acaso por aí, você sinta que são para você, afinal, sinto que você não sabe que existo, ou melhor dizendo, sinto que o Universo faz você ignorar a minha existência. É como um verso da música Shiver, do Coldplay, “Então eu olho em sua direção // Mas você não presta atenção em mim, não é?”. Todos os dias, quando vejo você vindo em minha direção, esse trecho vem na minha mente. Eu olho em sua direção, disfarçadamente, enquanto finjo ler um livro, e a impressão que tenho é que você nunca presta atenção em mim.  Mas afinal, por que não evitaria? Você é como a Meredith Grey, você é o Sol que ilumina o dia de todos, inclusive, o meu. Mas embora olhar para o seu belo sorriso posso iluminar o meu dia, olhá-lo também é uma certa tortura. É uma tortura pois ele nunca está sorrindo para mim, o seu sorriso pertence a outro. Provavelmente pertence a uma pessoa incrível, que realmente lhe mereça, e não a um covarde como eu que não sente-se a sua altura e prefere escrever escondido a lhe dizer o que sente.

Poema de Esquecimento

Amor-não-correspondido

É inverno em meu coração.
Um momento de escuridão.
Tudo aqui está frio,
Sinto-me vazio.

Sonho com a chegada da nova estação,
Onde flores brotarão.
Flores essas que só irão florescer,
Se os seus olhos puder esquecer

Quando acordar,
E por você não mais chorar
A luz do verão, a caminho estará

Mas quando outro alguém conseguir olhar,
E por novos olhos conseguir me apaixonar.
O inverno, enfim, acabará.

A Doce Ilusão Da Paixão

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É possível se apaixonar ou gostar de alguém apenas por ver essa pessoa poucos minutos por alguns dias da semana?

Por muito tempo não achava possível. Sempre revirava os olhos quando ouvia a expressão “amor à primeira vista”, ainda  tenho receios a essa expressão, na verdade. Embora ainda não acredite em amor verdadeiro à primeira vista, acredito, sim, em paixão ou simplesmente sentir algo que não sabemos explicar ao olhar para alguma pessoa pela primeira vez, e esse sentimento pode evoluir e se tornar amor. Seja como for, é algo que domina nossa mente, nos faz sonhar e querer estar com essa pessoa que nem conhecemos.

Talvez esse sentimento seja apenas um interesse em conhecer a pessoa, mas nossa mente nos ilude e faz com que pareça ser uma paixão?  Talvez. Isso é bem possível e provável. Digo por experiência própria. E é isso o que venho compartilhar com vocês, o meu sofrimento por pensar estar apaixonado (talvez eu realmente esteja, eu não sei)  por uma menina que vejo quase todos os dias, mas, por medo, covardia, insegurança, por achar que ela merece algo melhor que a minha pessoa, já que ela é  tão encantadora e parece ser tão incrível, e muitos outros sentimentos, não sou capaz de falar com ela para que eu possa entender o que sinto e, enfim, parar de ficar escrevendo poemas que ela jamais saberá que existem durante a madrugada. Em resumo, sou Dante e ela Beatriz. (Obviamente, os poemas de Dante são muito melhores que os meus, acho que os meus não chegam a ser poemas, na verdade. Mas são escritos com toda a minha alma.)

Esse sentimento é assim tão estranho porque não tem explicação. Mas, tolo como sou, fiquei por meses buscando uma explicação que não encontrei. Talvez nem encontre. É como diz uma frase que me faz pensar bastante: “Esqueça essa história de querer entender tudo. Em vez disso, viva.” (Faça o seu Coração Vibrar, Osho). Talvez eu devesse viver em vez de tentar entender o que sinto. Conversar com ela, conhecê-la, estar com ela em vez de apenas admirá-la a distância. Talvez viver com ela seja o caminho para entender o que sinto(?) E isso, talvez, seja o pior de tudo. Pior que não enxergar o que deve ser feito, é saber o que fazer, mas não ter coragem suficiente para fazê-lo.

Caso você se encontre como eu, não seja um tolo e covarde como sou. Não se assuste com esse sentimento estranho de querer estar com alguém com quem nunca conversou, de estar com alguém que apenas vê alguns dias. Em vez de se assustar com isso, converse com a pessoa. Declare esse sentimento estranho. Diga que não sabe o que sente, que talvez goste, talvez esteja apaixonado por ela. Grite ao mundo tudo isso! E Lembre-se sempre dessa ótima frase do Zafón: “O destino costuma estar na curva de uma esquina. Como se fosse uma linguiça, uma puta ou um vendedor de loteria: as três encarnações mais comuns. Mas uma coisa que ele não faz é visitas em domicílio. É preciso ir atrás dele.”. Então vão atrás da sua paixão maluca, meus caros. Eu não aprendi a lição (ainda, talvez eu aprenda) e por isso jamais terei a minha doce amada, mas vocês podem ter quem amam ou gostem. Eu fiquei apenas com a doce ilusão da paixão, mas vocês podem ter a doce realidade do amor. Só depende de vocês.

Caso queira baixar esse texto em pdf: http://adf.ly/1la3vd