Charles Baudelaire – A que está sempre Alegre

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 A que está sempre Alegre

Teu ar, teu gesto, tua fronte
 São belos qual bela paisagem;
 O riso brinca em tua imagem
 Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
 Sucumbe à tua mocidade,
 À tua flama, à claridade
 Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
 De tua vestes indiscretas
 Lançam no espírito dos poetas
 A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
 De teu espírito travesso;
 Ó louca por quem enlouqueço,
 Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
 Ao arrastar minha atonia,
 Senti, como cruel ironia,
 O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
 Da primavera ébria de cor,
 Ali castiguei numa flor
 A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
 Quando a hora da volúpia soa,
 Às frondes de tua pessoa
 Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
 Magoar o teu peito perdoado
 E abrir em teu flanco assustado
 Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
 Por entre esses lábios frementes,
 Mais deslumbrantes, mais ridentes,
 Infundir-te, irmã, meu veneno!

Lord Byron – Adeus

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Adeus

Adeus! e para sempre embora,
Que seja para nunca mais:
Sei teu rancor - mas contra ti
Não me rebelarei jamais.

Visses nu meu peito, onde a fronte
Tu descansavas mansamente
E te tomava um calmo sono
Que perderás completamente:

Que cada fundo pensamento
No coração pudesses ver!
Que estava mal deixá-lo assim
Por fim virias a saber.

Louve-te o mundo por teu ato,
Sorria ele ante a ação feia:
Esse louvor deve ofender-te,
Pois funda-se na dor alheia.

Desfigurassem-me defeitos:
Mão não havia menos dura
Que a de quem antes me abraçava
Que me ferisse assim sem cura?

Não te iludas contudo: o amor
Pode afundar-se devagar;
Porém não pode corações
Um golpe súbito apartar.

O teu retém a sua vida,
E o meu, também, bata sangrando;
E a eterna ideia que me aflige
É que nos vermos não tem quando.

Digo palavras de tristeza
Maior que os mortos lastimar;
Hão de as manhãs, pois viveremos,
De um leito viúvo despertar.

E ao achares consolo, quando
A nossa filha balbuciar,
Ensiná-la-ás a dizer "Pai",
Se o meu desvelo vai faltar?

Quando as mãozinhas te apertarem
E ela teu lábio -houver beijado,
Pensa em mim, que te bendirei
Teu amor ter-me-ia abençoado.

Se parecerem os seus traços
Com os de quem podes não mais ver,
Teu coração pulsará suave,
E fiel a mim há de tremer.

Talvez conheças minhas faltas,
Minha loucura ninguém sabe;
Minha esperança, aonde tu vás,
Murcha, mas vai, que ela em ti cabe.

Abalou-se o que sinto; o orgulho,
Que o mundo não pôde curvar,
Curvou-se a ti: se a abandonaste,
Minha alma vejo-a a me deixar.

Tudo acabou - é vão falar -,
Mais vão ainda o que eu disser;
Mas forçam rumo os pensamentos
Que não podemos empecer.

Adeus! assim de ti afastado,
Cada laço estreito a perder,
O coração só e murcho e seco,
Mais que isto mal posso morrer.

Lord Byron

De Outras Vidas

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Fechar meus olhos é mergulhar no seu olhar
Tão profundo como um oceano
mostrando que não é engano
que de outras vidas já me fazia suspirar

Contemplar o seu sorriso é uma forma de sonhar
Tão belo como uma estrela
trazendo essa certeza
que em outros mundos também o pude admirar

Sentir sua alma é o que me faz acreditar
Tão verdadeira como o amor
escondendo uma dor
que de outro lugar já vinha me encantar

Conversar com você é uma forma de me inquietar
Tão hesitante ao futuro
deixando-me inseguro
pois nessa vida também vai me deixar.

155 Dias

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Eu, solitário, estava encostado no corrimão perto da rampa, e uma menina, rodeada de pessoas, passou por mim. No meio de todas aquelas pessoas, ela se destacou e me encantou instantaneamente. Ela parecia ter saído dos meus sonhos e eu sentia isso na alma dela. Nesse momento, pude perceber em mim mesmo que a minha alma estava sorrindo, jamais havia sentindo algo assim. Conseguia ver em meus olhos o quanto estava encantado por aquela menina que hoje sei que se chama Sofia. Ao mesmo tempo, também via a covardia e o medo começarem a me dominar, me impedindo de tentar falar com você. Conseguia ver tudo isso em mim, já havia sentido tudo isso naquele momento em que te vi, mas agora eu estava me olhando sentir tudo aquilo. Estava presenciando o albor de todos os sentimentos que me dominam até hoje. Estava observando o início da minha grande paixão!

Quando vi aquela menina que dominaria o meu coração passar novamente na frente do meu eu do passado, senti tudo o que já havia sentido desde 29 de fevereiro até o meu hoje. Cada sentimento, cada pensamento e cada momento que tive com ela, vieram como um tsunami em mim. Por um mísero momento, voltei a sentir que me afogava com todos aqueles sentimentos. Era como se minha alma voltasse a sentir uma agonia horrível. Voltei a ficar tão acovardado como o meu eu do passado ficou em relação a Sofia por alguns meses. Sendo sincero, ainda me sinto meio acovardado até hoje perto da maravilhosidade da minha amada. Mas, apesar de tudo isso, estava ali pois realmente precisava falar algo com ela, algo que o meu eu do passado não teve coragem, na verdade, ele ainda não sabia, então não poderia dizer o que eu queria. Não podia me acovardar novamente como já havia feito antes. Então, aproximei-me dela, toquei em seu ombro, e perguntei se ela tinha um minuto. Ela olhou como aquelas pessoas educadas que sempre estão dispostas a ouvir o que alguém tem a dizer com uma certa curiosidade, mas se estava mesmo ou não, jamais saberia. Então comecei a falar, enquanto ela me olhava com um certo olhar de desconfiança.

– Olá, Sofia! Você não sabe quem sou, não faz nem ideia disso, na verdade. Mas estou falando com você agora porque, daqui a mais ou menos 155 dias, você receberá uma declaração de uma pessoa que vai deixar você muito assustada, desconfortável e com um grande medo. Você se sentirá vulnerável, como você mesma irá me dizer em algum dia do nosso futuro. Na verdade, tenho certeza que já estou deixando você desconfortável e assustada. – E era isso o que eu sentia vendo os olhos dela enquanto eu falava. Ela não tinha motivos para acreditar naquilo. Realmente parecia um maluco, mas continuei falando o que precisava. – Mas o motivo de estar aqui agora, Sofia, é que em cada um dos próximos 155 dias e muito além deles, eu me apaixonarei perdidamente por você. Cada vez que penso em você ou te vejo, minha alma volta a se incendiar com o fogo da imensa paixão que sinto. Meu coração se aquece e tudo parece ter mais cores e sentidos em minha vida do que tinham antes. O meu ser fica de joelhos por você! Não se assuste, por favor! Sei que parece algo doido, daqui a 7 meses, quando eu me declarar, também vai ser, mas sabe por que precisava dizer isso a você agora? Porque eu quero esses 155 dias que não tive. Quero conversar com você em cada um deles. Quero conhecer você em cada um desses dias. Quero me apaixonar em cada um deles, mas com você sabendo que existo e sabendo o que sinto. Não quero me apaixonar escondido e me torturar com pensamentos que apenas me fazem sofrer. Quero escrever poemas felizes sobre você! Quero gritar desde já o que sinto ao mundo! Gritar a paixão que tenho por você! Mas eu jamais terei esses 155 dias, Sofia. E jamais terei porque aquele idiota ali, não falará com você tão cedo. Ele viverá e sofrerá com os próprios receios e devaneios. Mas daqui a 155 dias, ele terá um momento de coragem em meio a um oceano de covardia. Realmente queria muito ter esses 155 dias, Sofia. Mas não posso mudar o passado. Aliás, mesmo que pudesse, talvez não fizesse isso. Por mais que eu queira esses dias extras, sinto que por mais doido que possa parecer, estamos indo por um caminho bom, depois de todo o medo e desconforto, não que eles tenham sumido completamente. Obviamente, minha amada, ainda que você esteja com esse rosto assustado e desconfortável por escutar isso tudo de um maluco que diz ter vindo do futuro, você não se lembrará do meu lamento e desejo de querer ter esses 155 dias. Não lembrará porque isso tudo não é real. Isso tudo é um sonho do qual acordarei daqui a pouco. E, quando acordar, ainda vou querer ter esses 155 dias, mas jamais poderia fazer algo para tê-los. A única coisa que até mesmo nesse sonho é real e muito intensa, é o que sinto por você. Jamais duvidei e nem duvidarei que sou perdidamente apaixonado por você, Sofia! Apenas queria que você soubesse disso desde o primeiro momento em que te vi.

A Sofia sorriu com um teor assustado de quem olha para algo que não entende, após contemplar o seu sorriso encantador, acordei.

MAUSOLÉU

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Durante uma hora maciça, deixou-se ficar, em pé, numa contemplação espantada. Lá estava a mulher, de pés unidos, as mãos entrelaçadas, entre as quatro chamas dos círios. Parentes e amigos tentavam convencê-lo: “Senta! Senta!”. Mas ele, fiel à própria dor, era surdo a esses apelos. Como insistissem, acabou explodindo: “Não me amolem, sim?”. E continuou, firme, empertigado. No fundo, achava que sentar, em pleno velório da esposa, seria uma desconsideração à morta. Uma hora depois, no entanto, cansou. E esta contingência física e prosaica fê-lo transigir. Ocupou uma cadeira entre dois amigos. Uma senhora gorda, aliás vizinha, inclinou-se, suspirando: — É por isso que eu não topo viajar de avião! Pronto. A dor do viúvo, que estava provisoriamente amortecida, reagiu. Ergueuse, alucinado. E foi um custo para contê-lo. Apertando a cabeça entre as mãos, encheu a sala: — Sabem o que é que me dana? Hein? Sabem? — interpelava os presentes; e prosseguiu: — É de que, do Rio para São Paulo ou vice-versa, não cai avião nenhum, ninguém morre. É o tipo de viagem canja, que todo mundo faz com um pé nas costas. É ou não é? — É. Mergulhou o rosto nas duas mãos, soluçando: — Então, como é que Arlete vai morrer nessa viagem besta? Como?!… Várias pessoas vieram confortá-lo: — Calma, Moacir, calma! Debateu-se nos braços que procuravam contê-lo: “Eu quero morrer também, oh, meu Deus!…”.

HISTÓRIA DE AMOR

Estavam casados há um ano. E, agora, no meio do velório, desgrenhado, Moacir fazia confidências públicas: “Nossa vida foi uma lua-de-mel tremenda!”. Rilhava os dentes, evocando o beijo cinematográfico que dera no aeroporto, pouco antes de partir de avião. A esposa ia a São Paulo visitar uma tia doente, e Moacir, retido no Rio por uma série de negócios, não pôde acompanhá-la. Agora se arrependia de uma maneira atroz; esbravejava: “Ah, se eu soubesse! Se eu pudesse adivinhar!”. E sustentava a tese de que teria sido, para ele, um altíssimo negócio, um negócio da China, ter despencado no mesmo avião, abraçado à mulher. E repetia: — Como vai ser? Como vai ser? Às dez horas da manhã, saiu o enterro. E, então, foi uma tarefa hercúlea controlar a dor furiosa de Moacir. Ele se arremessava contra as paredes; atirava-se no chão. Os pais da morta, as irmãs paravam de chorar, intimidados, ante uma dor maior. Não queriam deixar o viúvo ir ao cemitério; ele teve que prometer. “Eu fico quietinho! Juro que eu fico quietinho!”. E, de fato, comportou-se, lá, relativamente bem. Na saída, virou-se para o coveiro, numa recomendação patética: “Trate direitinho da sepultura, que eu dou uma gratificação, ouviu?”. Enfiou a mão no bolso, apanhou cem cruzeiros, que passou ao fulano: — Pra uma cervejinha! Mas não se esqueça, sim?

A DOR

Encerrou-se na própria residência, disposto a viver em função de sua dor. Estava disposto a sofrer para o resto da vida. Encheu a casa de retratos da esposa. Segundo a maledicência jocosa da vizinhança, havia retratos até na cozinha. Os amigos e parentes, apreensivos, comentavam entre si: “Isso já é loucura!”. Por outro lado, adotara um luto fechadíssimo. Ofendeu-se quando o sócio sugeriu, de boa-fé: “Põe fumo. Basta fumo. É mais moderno e não impressiona tanto”. Recuou vários passos; enfureceu-se: — Que negócio é esse de modernismo pra cima de mim? Tira o cavalo da chuva! O outro quis argumentar: — Mas vem cá, fulano, sou teu amigo, que diabo! Luto é uma coisa mórbida, doentia, desagradável! Exultou, numa satisfação feroz: — Pois que seja! Ótimo! Eu gosto de ser mórbido, eu pago pra ser doentio! O sócio saiu dali assombrado. Foi dizer para as relações comuns: “Quero ser mico de circo se o nosso Moacir não está meio lelé!”. Permitiu-se, ainda, o comentário profético: “Vai acabar rasgando dinheiro!”.

O SÓCIO

Chamava-se Escobar, o sócio. Podia não ser muito amigo do Moacir, mas havia, entre os dois, vínculos mais eficazes que os simplesmente afetivos: os interesses comuns. E verdade seja dita: o Moacir fazia uma falta imensa na firma. Ele era, no negócio, o gênio administrativo, ao passo que o Escobar contribuía com as idéias. Absorvido pela viuvez, ocupado em chorar a esposa, Moacir não tinha cabeça para pensar na vida prática. Com razão, o Escobar alarmou-se: “Assim não vai. Ou o Moacir volta, ou damos com os burros n’água!”. Dedicou-se, então, a arrancar o sócio de suas pesadas atribulações. Todos os dias ia visitá-lo: “As coisas lá na firma estão calamitosas!”. O outro, de barba crescida, olhos incandescentes, cabeleira, um vago ar de Monte Cristo, resmungava: “Não interessa!”. Insistia o Escobar, escandalizado: “Como não? Você tem interesses, deveres, responsabilidades!”. Desta vez, Moacir não respondia. Imergia numa ardente e fúnebre meditação. Era óbvio que seu pensamento pairava em alturas inimagináveis. E, súbito, sem a menor relação com os assuntos do amigo, empreendia a exaltação da mulher. Era taxativo: “Tu não imaginas, tu não podes fazer a mínima idéia! Era a melhor mulher do mundo!”. Dramatizava: — Qualquer outra não chegava aos pés da minha! Não era nem páreo pra minha! — E, pondo a mão no braço do Escobar, acrescentava: — Nunca mais, ouviste?, nunca mais quero nada com mulher nenhuma. Te juro! Te dou minha palavra de honra! Escobar erguia-se, atônito: — Toma jeito, Moacir! Nem tanto, nem tão pouco! Isso não é normal! Isso é contra a natureza! Moacir, trêmulo, replicava: — Pois eu quero que a normalidade e a natureza vão para os diabos que as carreguem! Seu consolo, agora, era o mausoléu, à base de anjos, que mandara erguer para a falecida.

A IDEIA

Passaram-se mais dois meses e o Moacir continuava imprestável. Escobar quebrava a cabeça: “Tenho que descobrir um jeito, um modo, uma maneira de salvar essa besta!”. Como era sujeito fantasista, que se envaidecia das próprias idéias, acabou descobrindo uma solução. Convocou uma mesa-redonda de parentes do sócio. Avisou: — O negócio está nesse pé: ou o Moacir vem trabalhar ou a firma vai direitinho para o beleléu. Vocês confiam em mim ou não? A resposta foi reconfortante e unânime: “Confiamos”. Escobar pigarreou, para clarear a voz: “Eu tive uma idéia que me parece genialíssima. Deve ser tiro e queda. E quero saber se vocês me autorizam, no escuro, a usar essa idéia. Autorizam?”. Silêncio. Os parentes se entreolhavam. Um porta-voz indagou: “Podia-se saber que idéia é essa?”. Respondeu o Escobar: — Não. O segredo é a alma do negócio. E considero minha idéia boa demais para antecipá-la. Direi apenas que se trata de uma mentira. Mentira necessária e salvadora. Vocês me autorizam a mentir? Sim ou não? Novo silêncio e nova manifestação do porta-voz: “Sim”. Escobar esfregou as mãos, radiante: “Então vou mergulhar de cara”.

A MENTIRA

Seguro de si, invadiu a casa do amigo e sentou-se a seu lado; entrou, como ele próprio diria depois, de sola: “Olha aqui, Moacir: teu problema é mulher, percebeste? Tens que arranjar, imediatamente, uma ou várias mulheres. Ou então, estás liquidado”. O outro, que estava sentado, ergueu-se trêmulo: “Estás maluco? Doido?”. Mas Escobar continuou num impressionante descaro, com a pergunta: “Topas uma farrinha hoje? Conheço um lugar que tem um material de primeira. Olha! Cada pequena daqui!”. Moacir disse, numa espécie de uivo: “Nunca! Nunca!”. Chegara o grande momento. Escobar esmagou a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro; dizia, sem desfitar o amigo: “Tu sabes que és meu, do peito, não sabes?”. — Mais ou menos. — Pois bem. Há uma coisa que tu precisas saber e que saberias mais dia menos dia. Vou te contar porque, enfim, não gosto de ver um amigo meu bancando o palhaço. — Fala. Escobar pousou a mão no ombro do sócio: “Tua mulher foi a São Paulo pra quê? Por causa de uma tia?”. E o próprio Escobar, exultante, respondeu: “Não! Pra ver o amante! Sim, o amante!”. Foi uma cena pavorosa. Quase, quase, o Moacir estrangula o amigo. Mas Escobar sustentou até o fim. Tornou sua mentira persuasiva, minuciosa, irresistível: “Eu mesmo vi os dois, juntos, em Copacabana…”. Decorara, ao acaso, o nome de um dos passageiros do mesmo avião e o repetia: “Vê, na lista, se não está lá, vê! Inventou o pretexto da tia para acompanhá-lo!”. Uma hora depois, Moacir arriava na cadeira, desmoronado; rosnava: “Cínica! Cínica!”. Em pé, vitorioso, Escobar perguntava: “Topas agora a farrinha? Topas?”. Ergueu-se, desvairado: — Topo! OS QUERUBINS Foi, com o amigo, e já sem luta, ao lugar combinado, que era a casa de uma tal Geni. Saiu de lá, bêbado e quase carregado, ao amanhecer. No dia seguinte, sem dizer nada a ninguém dirigiu-se ao cemitério. Durante uns quinze minutos, ficou vendo os operários que trabalhavam no mausoléu da finada Arlete. Era um mausoléu caríssimo, baseado numa alegoria de querubins, coroando a pureza da morta. Súbito, teve o acesso. Apanhou a picareta mais próxima e investiu, num desvario, fendendo os querubins de mármore. Quando o dominaram, o chão estava cheio dos anjos mutilados. Foi arrastado; e vociferava: — Não pago mais as outras prestações dessa droga! Não dou mais um tostão! — esganiçava a voz. — Minha mulher era uma cachorra!

Ó vós que no caminho do Amor passais.

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Ó vós que no caminho do Amor passais.
dizei se há dor igual à minha, grave;
peço, apenas, que me ouçais,
e que, depois, imagineis
que sou de todo o sofrimento albergue e chave.
Deu-me Amor por sua fidalguia,
que não por virtude que não tenho,
uma vida tão doce e tão suave
que amiúde a gente atrás de mim dizia:
Deus, por que estranha dignidade 
tem este assim alegre o coração?”
Perdi, ora, toda a confiança 
que do amoroso tesouro dimanava;
pelo que tão pobre fico
que até para falar careço de valor
Assim, fazendo como aqueles
que por vergonha ocultam seu tormento,
por fora sou contentamento, 
ao passo que por dentro me consumo e choro.

 Dante Alighieri

A toda a alma prisioneira, a todo coração gentil.

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A toda a alma prisioneira, a todo o coração gentil,
até os quais correndo vá o meu lamento
(e que diga cada um aquilo que sente)
saúde em seu senhor, ou seja o Amor.
Quase se tinha atingido a hora
em que a luz estrelar mais viva nos parece,
quando de súbito o Amor se me mostrou, 
e de tal forma que lembrá-lo me horroriza. 
Alegre me parecia, tendo
numa das mãos meu coração, e nos braços, 
envolta num cendal, minha dama, adormecida.
Despertou-a; e desse coração, que ardia, 
ela comia, receosa, humildemente
Vi-o depois afastar-se soluçando. 



 Dante Alighieri